CRÔNICA: Há anos, saí de madrugada buscando comprar algo para comer. Morava no centro de Belo Horizonte, e na cidade você tem a garantia que ao menos pode encontrar uma rede farmácias que domina as esquinas dos bairros, e acabei parando em uma delas. Comprei o que precisava e na saída me deparei com uma cena incomum: cerca de 5 cachorros aguardavam a sua dona na porta, sentados, enquanto ela comprava um biscoito. Não demorou que ela se aproximasse de mim e me dissesse seu nome: Lúcia. Ela vive nas ruas de BH.
Conversamos um tempo e na despedida Lúcia me convidou para passar qualquer dia em sua casa e tomar um café imaginário. O mais louco dessa história é que este café não tinha a ver com a pobreza ou a fome que a rua pode impor sobre alguém, mas se tratava da imaginação que uma boa e longa conversa propõe.
Resolvi ir lá tomar o meu café. E escrevi uma história que me rendeu uma amizade. E um aprendizado que me mostrou o peso de um olhar. Na ocasião, Lúcia me disse que “todo morador de rua bebe ou usa drogas. Isso traz um alívio dos olhares preconceituosos que atormentam… entristecem. A gente tá deitado aqui, as pessoas te olham e, chapada, você não vê. Dói, é preconceito de todas as formas”. Em seguida, cantou a sua versão da música “Este seu olhar”, de Tom Jobim:
Teste 3
“Esse seu olhar, quando encontra os meus,
fala de um preconceito que eu jamais imaginei.
Minha roupa suja te assusta, me desculpa, me desculpa.
Quando é que você vai virar gente,
sem esse preconceito de uma simples roupa suja?
Eu moro na rua, tenho motivo…”
Como tudo na vida dela diz respeito a perspectivas, Lúcia, que na época morava no segundo bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, chamava sua casa de “Mansão de Papelão”. O nome veio devido a uma necessidade de um dos seus cães que ficou doente. Sem grana, ela o levou para uma clínica da Faculdade Federal de Minas Gerais (UFMG). Chegando lá, disseram pra ela que não seria possível ajudar sem um endereço. Então, ela deu o único que ela tinha: “disse que eu morava no canteiro da Av. Bias Fortes, no Bairro Funcionários, numa mansão de papelão, sem número”. Seu cão foi atendido.
Lúcia cursou Artes Plásticas, na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG), e um dos seus sonhos é fazer uma exposição sobre olhares. “Queria ter uns óculos que filma, tira foto, desses que fazem de tudo. Ia gravar o olhar de cada um, depois ia colocar as fotos lá na parede com a frase: esse é o jeito que vocês nos olham”. E deixa a pergunta: “que olhar seria o seu?”.