Como o “trabalho de formiguinha” tem dado bons resultados no Santa Marta

Foto: Christian Rodrigues
Foto: Christian Rodrigues

Lixo: por muito tempo, sinônimo de inutilidade, desprezível. Errado. Se fosse assim, não sofreríamos tanto com os reflexos de mau descarte. A questão é: não paramos de consumir e geramos cada vez mais resíduos. Em uma única ida ao supermercado, temos as bandejas de isopor, as embalagens dos produtos industrializados e as sacolas plásticas. Em 2016, no Fórum Econômico de Davos – encontro de líderes empresariais, políticos e intelectuais de todo o mundo – foi apresentado um estudo que aponta que, até 2050, os oceanos terão mais plásticos do que peixes. É preciso agir. Com urgência. Todos juntos.

Dentro das favelas não é preciso procurar muito para entender o lixo como uma questão importante. Historicamente os governantes, por razões diversas, optaram por negligenciar essas áreas. Alguns moradores também, por não conhecerem seus papéis e responsabilidades político-sociais, despejam todo tipo de entulho e resíduos em locais inapropriados. Vale refletir: o princípio da democracia é “o povo no governo”, e não ao contrário. É um imperativo: seja o governo que desejas. A mudança pode começar pelo seu exemplo.

Foto: Christian Rodrigues
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Jurema Carvalho, moradora do Santa Marta e representante do “Mulheres pela Paz”, acredita que a vida é um movimento de causa e efeito: “se você plantar o bem, o bem virá para você”. Ela sempre se incomodou com a quantidade de lixo jogado em todo o percurso até sua casa e resolveu fazer alguma coisa. Junto com o projeto “Reino da Alegria”, com a Igreja Metodista, a Missão Batista, a Igreja do Nazareno e a Comlurb, ações foram tomadas para mudar o cenário no local.

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Uma grande quantidade de lixo foi retirada de vários locais e as crianças foram incentivadas a plantar mudas no novo espaço. Um trabalho de conscientização, para que deixassem de jogar lixo no chão.

Outro morador que se sentiu motivado a começar uma mudança foi João Batista da Silva, de 71 anos, mais conhecido como Tim Maia. Ele divide o tempo entre o trabalho de vigia noturno e os cuidados com a horta comunitária em frente a sua casa – que leva seu nome.

Diariamente a Comlurb recolhe cerca de 10 toneladas de material sólido na comunidade. Para o técnico de limpeza urbana, José Romero, a maior dificuldade é a descida dos entulhos. Ele defende que seria necessário um pouco mais de consciência por parte dos moradores: “O pessoal não colabora com a descida dos entulhos. A gente tenta conscientizar o morador a não colocar o lixo nas encostas, nas valas, que acaba trazendo um transtorno para a gente e para toda a comunidade” – explica. O lixo nas canaletas e valas traz muitos problemas para os moradores: doença, desabamento, entupimento dos bueiros.

Foto: Christian Rodrigues
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Um dos garis mais queridos pelos moradores, Daniel Alves Tavares, está há 7 anos no Santa Marta e diz buscar constantemente fazer o melhor. “Estamos aqui para trabalhar, para limpar a comunidade, descer os containers de lixo. Fazer o que tem de ser feito: trabalhar pela comunidade. Falar que é fácil, não é. Mesmo aqui, que é pequeno, dá muito lixo. Tem que tirar lixo todo dia, tirar entulho dessas valas que estão abertas”.

Para o gari, uma das coisas que poderiam ser feitas era fechar as valas que estão abertas, evitando a descida do lixo que vem, especialmente, com as chuvas, causando ainda mais transtornos na comunidade. Mas tudo é um trabalho em conjunto: “é um ajudando o outro; se a população tiver um pouco mais de consciência, vai ser muito melhor para nós também”.

Quando os turistas sobem ao morro ficam impressionados, tanto pelo visual, quanto pela sujeira no local. À moradora e guia Salete Martins, muitos perguntam o motivo. Para ela, resume-se em um só: falta de educação. Acredita que, se cada um fizer a sua parte, a favela vai ser um lugar mais limpo. “E a gente quer lutar por isso, a gente luta por isso. Mas é um trabalho de formiguinha” – diz ela. Salete acredita na força do conjunto: “juntos somos mais fortes” – garante. A guia de turismo pede ajuda dos projetos sociais que existem na favela e da associação de moradores, além de pessoas dispostas a melhorar a situação do lixo no morro Santa Marta. Que a solução comece por mim e você. Será o primeiro passo do que pode ser uma grande mudança.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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