Projeto de reforço escolar no Morro do Salgueiro dribla falta de assistência da prefeitura

Ana Paula oferece aulas para crianças em projeto comunitário

Sem educação. É assim que muitos pais de alunos da rede pública de ensino veem o processo de aprendizagem dos filhos. Isto porque o projeto pedagógico da prefeitura de manter aula online não dá conta dos alunos que não têm acesso à internet ou computador e, mais do que isso, dos responsáveis com limitações de instrução escolar. Na tentativa de minimizar os impactos do coronavírus na educação de crianças do Morro do Salgueiro, na zona norte do Rio, Ana Paula Bloch desenvolve um trabalho de reforço escolar presencialmente com alunos do 1º ao 5º ano.

A professora de magistério criou a iniciativa depois de perceber que as crianças estavam ociosas na comunidade onde mora. São 13 crianças em um espaço cedido de uma biblioteca comunitária, que leva o nome da ex-professora, Jurema Baptista, a qual deu aula para diversas gerações na favela. As atividades são gratuitas e o objetivo do projeto é ampliar as ações, incluindo aulas de música. Mas, ainda não tem professor. 

Ana Paula pede o valor de R$ 25,00 por mês para os pais que podem doar. Esse dinheiro é para comprar o lanche das crianças e material, como folha, lápis e, às vezes, promover sessão de cinema. “A gente não tem uma doação. Tem pais que usam do auxílio emergencial para contribuir com o reforço para o filho”, desabafa a professora.

Teste 3

Quando o assunto é apoio do poder público em ações, não só em educação, mas em outras áreas durante a pandemia, a questão é motivo de crítica para a educadora. “A falta de assistência do governo nas favelas é algo surreal, porque a gente se sente esquecido.” 

Tailane da Silva de Paulo, de 26 anos, é mãe de dois alunos que frequentam o projeto. A realidade dela reflete a de muitas mães que não podem deixar de trabalhar, porque precisam colocar comida na mesa, pagar as contas e, na maioria das vezes, não podem parar para ensinar os filhos. Ela conta que vai para o trabalho e deixa as crianças no reforço. “Achei uma ideia ótima, porque meu filho melhorou muito e, se não fosse essa iniciativa, meus filhos ficariam sem atividades, pois eu preciso trabalhar.”

Os alunos não podem ir à aula sem máscara e o projeto mantém o distanciamento físico de cada um. Além disso, o reforço conta com álcool gel para higienização das mãos dos pequenos. 

A prefeitura do Rio disponibilizou aulas online para crianças com acesso à internet e apostila aos que não têm. Questionada sobre como a Secretaria Municipal vai avaliar os alunos e se existe algum plano para solucionar o problema de ensino às crianças, tendo em vista que muitos pais não têm instrução escolar para fazer o acompanhamento, o órgão não respondeu. 

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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