Com açúcar, com afeto: um doce de pai na Vila Kennedy

Foto: Renato Moura
Foto: Renato Moura

“Pelaliz Doceria Mirabolante”, a mistura de poesia com guloseimas que virou negócio

“Olá, bom dia. Gosta de poesia? Olá, tudo bom? Gosta de bombom?” Essa é uma das maneiras pelas quais Vanderson Trindade Rogério – que gosta de ser chamado apenas de Vander – aborda as pessoas pelas ruas. Trajando camisa social, gravata e bermuda, ele leva na mão uma bolsa térmica vermelha com doces como palha italiana, que custam entre R$ 2 e R$ 4, da empresa “Pelaliz Doceria Mirabolante”, que criou há cerca de um ano e meio.

Quem comprar o doce ganha poesia de graça: é “palavra adocicada”, como descreve Vander, que além de microempreendedor individual, é pai da Liz, linda como uma boneca. A menina, de cinco anos, não só inspirou o nome do negócio, como foi o motivo de sua criação.

No meio de 2016, no curso daquela que foi considerada pelos economistas a pior recessão que o país já enfrentou, com 12 milhões de desempregados, Vander pediu demissão do trabalho. Ainda por cima, tinha acabado de se separar da mãe de sua única filha. Entre as medidas para enxugar o orçamento, tirou a menina da creche e assumiu a responsabilidade de cuidar dela.

Teste 3

O expediente do lar e o dever de cuidar de uma criança exigiu de Vander, entre outras coisas, saberes mais profundos na cozinha. “Superei até um trauma. Quando eu era moleque, vi uma panela de pressão explodir na cozinha da minha avó. Depois disso eu sempre saía de perto quando ouvia um desses utensílios chiar. Mas nesse período aprendi até a fazer feijão, foi uma evolução” – comemora.

Foto: Renato Moura
Foto: Renato Moura

Já cozinhando pratos principais com facilidade e até com sucesso, o jovem começou a arriscar as sobremesas. “Foi aí que eu tive a sacada. Pensei: estou em casa, sem nenhum trabalho; vou vender uns doces, será que dá pé? Comecei a buscar na internet: primeiro o brownie, para vender para a família e amigos próximos, para tirar uma graninha”.

Assim como Elisângela Nogueira, vizinha e cliente de Vander, os familiares aprovaram os doces. “Uma delícia, dá vontade de quero mais”, comentou a dona de casa. Só que a quantidade de clientes ainda era pequena, perto dos boletos que chegavam. A conta não fechava. “O jeito era ir vender nas ruas. Mas e a trava? Como sair na cara limpa e vender assim?”.

O problema não era ir para a rua vender, ele já tinha feito isso em outros momentos. O maior obstáculo era a falta de confiança em si mesmo. “Eu era o menino exemplo da família, até passei para a Marinha, mas pedi baixa porque achei que não era o que eu queria”. Para enfrentar a frustração de, naquele momento, não encontrar no espelho o menino “com o futuro brilhante” que morou na expectativa da família durante toda a vida, Vander acabou reencontrando a sua essência.

A essas alturas surgiu a ‘Pelaliz”, o que  sempre esteve no caminho de Vander mas que ele tentava sabotar: a poesia. Ele usou a ferramenta das palavras doces para se munir da coragem necessária para ser um vendedor das ruas, ou “caixeiro-viajante”, como já chegou a se denominar nas redes sociais.

Foto: Renato Moura
Foto: Renato Moura

Hoje, a empresa de doces – que Vander quer transformar em loja online com atendimento sob encomenda até o primeiro bimestre do ano que vem – é uma das maneiras que ele encontrou para financiar o seu sonho: escrever livros. Os principais projetos são: uma série de contos baseada na relação entre pai e filha, e uma ficção sobre um universo fantástico dentro da favela, “algo meio Harry Potter” – como ele mesmo explica.

Os doces da “PelaLiz” podem ser adquiridos através da página no Facebook, com o mesmo nome. Os escritos de Vander ainda não têm previsão de publicação, mas ele segue dando um passo de cada vez. Afinal, como o próprio doceiro profetiza: “Nesse mundo não há nada tão grande que não tenha sido tão pequeno”.

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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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