Sou aluno da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), e, pela terceira vez desde que comecei a estudar na instituição, os docentes estão em greve. As duas últimas paralisações, que duraram cerca de 4 meses, terminaram sem conquistas significativas para a categoria, e não há qualquer razão para acreditar que o desfecho, dessa vez, será diferente.
Sem legitimidade e sem lastro de apoio em nenhum grupo social relevante, a verdade é que o movimento grevista, desacreditado, ridicularizado e caricaturado, perdeu a razão de ser. A presente greve foi decidida numa assembleia em que apenas 130 dos 1394 docentes da UFAL votaram a favor da interrupção das atividades. É assim que as Associações Docentes das Universidades Federais funcionam: legitimam quóruns ínfimos nas reuniões (aqui, meros 10% de representação), que deturpam a visão geral da classe. Além disso, pouquíssimos professores, que não os de carta política marcada, costumam ir às assembleias, que são ambientes de opinião unilateral, nos quais qualquer ideia diferente do status quodo grupo é violentamente rechaçada.
Além disso, nas circulares de convocação para assembleias, as pautas geralmente são “mascaradas”, para evitar que os que partilham de opinião contrária se façam presentes. Tópicos como “votação de greve” costumam ser substituídos por eufemismos do tipo “análise da conjuntura” ou “avaliação do cenário nacional”. Esse artifício consegue afastar ainda mais das reuniões os docentes que não compactuam com as paralisações.
Teste 3
O resultado: 130 docentes, reunidos num ambiente hostil aos demais, decidiram, numa tarde qualquer, o futuro não só dos outros 1264 docentes da instituição, mas também dos quase 30 mil alunos matriculados em algum dos 84 cursos que a UFAL oferece.
E a greve não tem reivindicação clara. O movimento soa como um afônico grito de “Fora Temer, Contra a PEC do Teto de Gastos”, saído das mesmas gargantas desacreditadas que entoavam “Fora Dilma, Abaixo o Ajuste Fiscal” na última greve, alguns meses atrás. Os grevistas não só não sabem o que querem, como também não sabem o que não querem, e em meio a essa politização acéfala, qualquer interesse de classe, se é que em algum momento chegou a existir, fica perdido em meio à confusão. Aliás, um estudo da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, divulgado em setembro, concluiu que os professores universitários de instituições públicas federais no Brasil estão entre os mais bem pagos do mundo, com ganhos comparáveis aos dos países nórdicos, como Finlândia, Noruega e Suécia. E eu aposto que nesses outros países as exigências de desempenho para os docentes são muito mais elevadas, com controle muito mais rígido de indicadores, desde qualidade da aula ministrada até número de faltas e quantidade de artigos publicados.
No nosso país, segundo o mesmo estudo, os professores de ensino público fundamental e médio ganham tremendamente mal, e a situação deles é uma que merece atenção urgente. Mas esse não é o caso dos professores universitários federais. E as greves existem para reivindicações de classe. A Constituição Federal assegura total liberdade de manifestação ideológica e de defesa de opinião política, mas a greve não é instrumento para esse fim. As paralisações existem para discutir e negociar demandas de classe, e negociar torna-se impossível se um dos lados se recusa a sentar na mesa com o outro para a negociação. Para os grevistas, o governo Temer é ilegítimo, e assim sendo, não tem legitimidade para negociar.
É não só perfeitamente aceitável como também desejável que todos tenham opinião política e que lutem por ela. O que não pode acontecer é que serviços públicos sejam interrompidos por conta exclusivamente da opinião política alheia. Aliás, discussões políticas à parte, o Brasil precisa mesmo é de mais eficiência nos serviços públicos para funcionar melhor para todo mundo. E a greve só nos distancia desse objetivo.